Cultura
Semiótica
Justifique sua resposta existência.
Conhecem o livro do Ailton Krenak?
Apesar de ainda não ter lido, o título sempre me chamou muito a atenção: A vida não é útil.

Um grande livro, ainda não li
O conceito é que a vida não dever ser produtiva, mas deve ser vivida como fruição.
Mas estava refletindo… o que nos difere do restante das espécies animais, é o intelecto e, com ele, a busca por sentido.
Na inquietude do ser e na ânsia do desejo… Aqui, os símbolos se tornam essenciais para o ser humano justificar sua própria existência.
Em um de seus ensaios, Aristóteles cunhou a poiesis, que seriam as atividades que existem para produzir algo “externo” (como construir uma casa, fabricar uma cadeira…)
Trouxe também o conceito da praxis, que são atividades que existem por si mesmas, com sentido pleno (como contemplação, amizade, pensamento).
Em outros escritos Aristóteles também discute a mímesis, que significa representar e reorganizar a realidade, envolvendo o observar a vida, reconhecer padrões humanos, traduzir experiências de formas simbólicas. Aqui entra a arte como uma representação da realidade baseada na semelhança e na necessidade, permitindo o entendimento do que é universal, não apenas particular.

Começamos complexos, né?
Mas fica comigo e vê se faz sentido (ou se daqui sairão crises existenciais)
Os símbolos, pessoas que já morreram e uma designer que pensa muito.
Muito bom dia Ajners! Hoje, quero convidá-los a entender o que mais me interessou no design, há 10 anos, no primeiro semestre da faculdade: a conexão que ele possui com a psicologia e o mundo do sentir.
Como diria Carl Jung, fundador da psicologia analítica:
“Veja bem, o homem precisa de uma vida simbólica - precisa muito. Vivemos apenas coisas banais, comuns, racionais ou irracionais… mas não temos uma vida simbólica. Onde vivemos simbolicamente? Em lugar nenhum, exceto onde participamos do ritual da vida”

Tá aí o Jung. Até certo momento ele era amigo do Freud. Mas aí brigaram por assuntos como libido e inconsciente.
Se a vida não pede por utilidade, mas a essência humana anseia por sentido, os símbolos talvez sejam o que utilizamos para justificar nossa própria existência. Uma espécie de racionalização do que não pode ser explicado.
O pássaro não questiona se hoje ele deve voar ou ficar no ninho. Ele faz o que deve ser feito.
(Ou como diria Clóvis de Barros… o gato gateia. Assiste aí no minuto 1:47)
Nós, todavia, utilizamos o intelecto para justificar, refletir, decidir e definir a cada dia o que viver e como viver. Queremos que tudo se justifique pelas nossas crenças, sejam elas éticas, morais e/ou espirituais.
Jung vê os símbolos como uma tentativa de encontro entre opostos movida pela tendência inconsciente à totalização. O símbolo é aquele elemento que concentra em si mesmo uma resposta universal infinitamente rica para conceitos diversos. Talvez foi da mesma forma que Aristóteles observou a mímesis: como padrões universais da ação humana.
O símbolo é capaz de exprimir por meio de imagens muitas coisas que transcendem as problemáticas específicas dos indivíduos. Ele é capaz de conectar. Para Jung, eles têm vida. Atuam. Alcançam dimensões que o conhecimento racional não pode atingir.
E olha só como isso se conecta com as marcas!?
Hoje, conseguimos trazer ainda mais vida aos símbolos por meio do desenho, da atuação, do motion, do vídeo, do som, do cheiro… Assim nasce um universo simbólico que muitas vezes quer passar uma única mensagem, mas que pode ser recebido por cada indivíduo de uma maneira muito particular.
Mas e os Ajners?
Bom… Talvez seja por isso que, anos depois, nosso propósito na Ajna acabou se resumindo em uma frase muito simples:
fazer sentir o que se vê.
Porque um símbolo pode nem sempre ser entendido racionalmente, mas ele é sentido.
E para nós, o Branding é uma ferramenta de construção do espírito de uma época, por isso criamos projetos que acreditamos verdadeiramente.
Logo, abrir a porta para uma vida com significado pode ser feito por meio de diversas formas, como cultivando nossos sonhos e fantasias, estando atento às sincronicidades da vida, permitindo-se ser tocado por uma obra de arte e participando de rituais.
Assim, eu diria que…
A vida humana produz, inevitavelmente, repertório simbólico.
A arte nasce da observação desse repertório (mimesis)
O design produz artefatos (poiesis)
Esses artefatos reorganizam símbolos da cultura, conectando pessoas.
Por isso acredito que o design é uma produção simbólica engrandecida pela observação da vida.
E depois de escrever tudo isso, compreendi ainda mais o motivo de eu ser tão apaixonada pela minha profissão. Porque de certa forma ela justifica minha própria existência, criando símbolos que ajudam a justificar a existência de empresas, e substancialmente, outras vidas.
Minha vida ganha mais sentido ao entender que, a partir do meu trabalho, essas empresas podem construir um mundo mais profundo, simbólico e que conecta as pessoas.
Bom, por hoje acho que já falei demais.
Talvez a vida não seja útil, mas ela presta.
Até a próxima,
Eliza.
